Gonçalo Diniz abriu as portas da sua casa, mesmo que à distância de um ecrã, para falar abertamente da carreira, da família e da “alma gémea”, o grande amigo João Ricardo.

09:15 – 31/10/23 por Marina Gonçalves

Fama Gonçalo Diniz

F ocado no trabalho, mas sem deixar de lado a família, Gonçalo Diniz faz questão de investir na carreira de ator que já conta com mais de 30 anos.

Começou as pegadas no mundo da representação lá fora – tendo feito parte de ‘Malhação’ e ‘Xica da Silva’, no Brasil – e deu depois várias cartas na ficção nacional. No currículo soma várias produções televisivas, tais como ‘Saber Amar’, ‘Vila Faia’, ‘Mar Salgado’ ou ‘Nazaré’. Agora, volta a conseguir ir além fronteiras, e depois de ter integrado o elenco da série ‘Sem Limites’, esteve em gravações na Argentina. Mas sobre este último projeto ainda não pode adiantar pormenores.

Gonçalo Diniz já enfrentou um cancro no testículo e foi pai pela primeira vez há seis anos, da pequena Vitória, fruto da relação que mantém com Sofia Cerveira, o seu grande apoio.

A entrevista com o Fama ao Minuto contou com fortes emoções quando chegou às recordações do amigo João Ricardo, “a sua alma gémea”, que morreu em 2017. Mas o início da conversa foi de partilhas entre câmaras.

‘Sem Limites’ foi um grande projeto em que esteve a trabalhar recentemente. Queria começar pela curiosidade de saber como é que foi trabalhar com o Rodrigo Santoro e o Álvaro Morte?

Estou muito preparado para o internacional, já me ando a preparar há uns seis anos com cursos. Vou muito a Espanha fazer [formação com o] Juan Carlos Corazza. Continuo a ter essa questão da busca pela composição das personagens e explorar dentro da minha arte aquilo que abracei o máximo possível. Existem milhões de oportunidades. Quando comecei a estudar à séria – isto foi depois de 20 anos de carreira – é que comecei a ver os métodos que eles têm. Isto para dizer que me preparei muito e quando cheguei lá, curiosamente, estava até mais preparado que eles. [risos]

Tive a reunião com o Simon West, que é um realizador fantástico, um homem que vinha de dirigir Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger, Angelina Jolie… e chega ali um senhor — é aí que vemos que a dimensão é dinheiro, não é mais nada porque saber fazer, nós também sabemos fazer, claro que temos de nos aplicar muito. Chego lá e topo-me com dois ‘gurus’, um que trabalha muito em Hollywood e o Álvaro que vinha de ‘Casa de Papel’. Já conhecia o Rodrigo, já era meu amigo mas isso foi uma coisa que nem foi falada lá. Ninguém tinha de saber da nossa amizade porque eu era o terceiro protagonista e havia ali umas quezílias entre eu e os outros atores espanhóis – que eram muito mais nomeados do que eu, de nome em Espanha, mas ‘veio o português fazer o terceiro protagonista’.

Mas sentiu isso?

Muito, claro. Isso sente-se. Vais para os Estados Unidos [e perguntam] ‘quem é este’. Mas está a ocupar um bom lugar, a fazer bem, o Simon West gostava, o produtor gosta, o único que tinha conexão com o Rodrigo Santoro – ele não falava com ninguém. Tive uma conexão com o Rodrigo e com uma ou outra pessoa, à parte disso dou-me bem com a equipa técnica, crio amizades. Estava envolto em tudo e ao mesmo tempo com grande cuidado porque tinha informações de todos os lados, e fazer uma série destas não é fácil. Nós preparámo-nos muito. O Álvaro, infelizmente, saiu direto para a série e não vinha preparado, então vinha a querer compor coisas e às vezes havia choques normais. E eu fui observando.

Choques consigo ou com a produção?

Não, comigo não há como haver choque. Comigo só há choque se vir maus-tratos, injustiças, faltas de profissionalismo. Agora menos, cada vez menos, mas antigamente… e paguei um bocado por isso. Há algumas pessoas que não gostam de trabalhar comigo, naturalmente, porque sou muito profissional e isso é chato, para quem não vem preparado é muito chato. Muito desagradável. E aqui em Portugal trabalha-se ainda assim. Isso é uma crítica mas acho que para um bom entendedor poucas palavras bastam. É uma crítica para construir porque se tu não te preparas, estás a fazer perder o tempo daquela pessoa que se preparou.

Há uma grande diferença entre estudar em casa, chegares com tudo sabido, a decorares na hora, por melhor que sejas. E o facto de ser novela não tem de ter menos empenho, menos esforço da tua parte.

É um absurdo, faço testes para fora e sou conceituado, respeitado, mesmo quando não fico dizem-me e agradecem. Aqui não te ligam, não te respondem

Deve haver sempre uma preparação prévia do ator para a personagem?

Eu trabalho afincadamente, de uma forma em que tenho de sentir aquilo que está lá e, mais importante ainda, tenho de saber o que é que eu significo ali, o que é que eu tenho de representar. Não é o meu ego a querer representar, é aquela personagem que quer dizer alguma coisa naquele contexto.

Vais lá fora e não vês isso, não vi um ator com papel. E neste último trabalho que fiz agora na Argentina – que não posso dizer – não há um ator com papel, os atores estão todos preparados. As pessoas sabem que estão lá, vão esperar, não vão reclamar porque estão contratadas para estar ali.

Essa é a grande diferença que vê entre trabalhar em Portugal e lá fora?

Eu não sou da SIC. A minha mulher é contratada da SIC, eu não. Sou um ator que nunca teve décimo terceiro mês. Sou freelancer há 31 anos

Há um preconceito?

Há e isso é triste. É triste ver que os nossos grandes têm de ir para fora para ser reconhecidos. É um disparate brutal porque nós temos de valorizar o que é nosso. Acho que ainda vamos a tempo. Não sou eu que vou fazer essa luta. Sou eu e mais pessoas que querem realmente valorizar a arte. Tens de ir a teste, tens de fazer concurso público para ter uma obra e não pode ser o sobrinho do autarca. Acho que quem merece é quem trabalha para isso. Não que o outro apadrinhado não esteja apto. Se está apto e fez bem, tudo bem. Agora, não é só chamar o apadrinhado por apadrinhado. Porque se não, quem não é apadrinhado, é muito difícil entrar no mercado.

Há oportunidade e espaço para todos mas esse espaço não está aberto a todos?

Acho que é por aí. É das coisas que me deixam triste no país, o resto temos capacidade. E temos uma coisa em Portugal — lá fora também existe mas muito menos — que é a inveja. Não querer torcer pelos outros.

Tenho colegas que fizeram uma série maravilhosa que adorei e fiquei tão feliz que foi ‘Rabo de Peixe’. Fiquei tão feliz pela oportunidade. Não sei se houve ‘panelas’ ali ou não, mas fiquei tão feliz. E a grande maioria das conversas dos meus colegas era só críticas. Colegas da área por não estarem no projeto. Acho que isso é tão ridículo. Há espaço para todos e tens de torcer, acima de tudo, por quem está a fazer. E está a falar a pessoa que é mais ‘eliminada’ porque é o ator que fez novela ou porque é caro, ou porque me têm como ator da SIC Eu não sou da SIC. A minha mulher é contratada da SIC, eu não. Sou um ator que nunca teve décimo terceiro mês. Sou freelancer há 31 anos.

Pertenço a uma geração em que sou um ator de formação. Mesmo não estando a trabalhar, todos os dias eu exercito. Acho que isto depois tem um preço, cobras o que tu vales. Mas não posso cobrar os 90 mil seguidores que tenho

Mas ‘gosta’ de ser freelance ou preferia ter contrato?

Só me ofereceram contrato na Globo – na ‘Malhação’ – e depois tive um na Manchete – na ‘Xica da Silva’ – durante um ano e meio. A partir daí ,nunca tive contratos fixos, faço por obra. Tenho quatro ofícios, sou locutor, ator de teatro, ator de cinema, ator de televisão e dou aulas, ainda sou palhaço nas horas vagas. Não tenho medo de trabalhar. A questão não é a falta de trabalho, é como é que o trabalho está direcionado e quais são as tuas chances de trabalhar. Hoje em dia com isto [telemóvel], isto mudou o ator.

Pertenço a uma geração em que sou um ator de formação, estudo todos os dias, faço exercícios vocais, de interpretação, leio Mesmo não estando a trabalhar, todos os dias eu exercito. Acho que isto depois tem um preço, cobras o que tu vales. Mas não posso cobrar os 90 mil seguidores que tenho.

Sente que ter um determinado número de seguidores nas redes sociais agora é crucial para um ator?

Em vez de me meterem a mim, metem sete miúdos de telefones e o salário vai distribuído. Claro que lhes sai mais barato. Se atinge mais pessoas? Se isso funciona? Não sei! Como diretor que sou também, gosto de ter atores em cena. Não me interessa a personalidade da pessoa, estou a contratar um ator, temos de distanciar as coisas.

O conhecimento e a formação sobrepõem-se às redes sociais?

Eu tenho uma grande dificuldade. A Sofia [Cerveira] já gere isto melhor, mas a Sofia perde horas nisto. Eu não quero perder horas nisto. Quero perder horas no surf, a ver para depois ter conteúdo. Isto [o telemóvel] é um vício. Estou a lutar aqui em casa por causa da Vitória [filha]. É viciante, é gostoso meteres um ‘post’ e ver quem comentou. É o ego e um lado de satisfação pessoal que é viciante.

E sente-se quase que na obrigação de fazer publicações para se manter ativo?

É o que me dizem, que é importante. É como dizerem que é muito importante ir aos Globos de Ouro. Este ano não estive nomeado e tive um trabalho que me impediu de ir. A Sofia [Cerveira] foi trabalhar e eu até teria ido. Não estou a criticar, acho que é uma festa bonita para quem gosta e para quem gosta de aparecer. Mas aquele conceito de teres de estar lá para aparecer, para teres trabalho, sou contra isso.

Estou a fazer testes com grandes atores mundiais. Estou nesse nível. Apesar de não ficar muitas vezes, dá-me um prazer tão grande poder saber que há um mercado lá fora

Ir sem ser por obrigação ?

É uma festa, não é um lugar onde vais pegar trabalho. Pego trabalho num teste. Eu não sou um lobista, sou um ator, então tenho de me posicionar como ator. Devemos pensar neste módulo, quem vem da antiga. Falo disto com os meus colegas, da minha geração. E claro que eles estão um bocado desesperados com esta nova loucura. Não há uma segurança neste país. Ninguém tem uma segurança neste país.

Sente isso cá mas lá fora não?

Não sinto, de todo. Lá fora, em primeiro lugar, tenho três agentes e mandam testes todas as semanas. Sinto-me ativo, desejado. Sinto-me assim quando me chamam para um trabalho. Gostaram de alguma coisa ao longo destes 32 anos de carreira em que tenho feito investimento, está a funcionar. Estas pessoas querem-me. Eu sou o produto, estou a fazer testes com grandes atores mundiais. Estou nesse nível. Apesar de não ficar muitas vezes, dá-me um prazer tão grande poder saber que há um mercado lá fora e que não estou dependente disto para ver quando me chamam para trabalhar. Estão a dar-me melhores coisas lá fora agora do que aqui. Atenção, não podemos estar sempre em alta, há que dividir.

Isso tem a ver com a mentalidade ou vai também à questão da falta de apoio para a Cultura em Portugal?

É um mix dos dois. Mas o que é que tem a ver a falta de apoio com a panela? São coisas distintas.

Para quem é que vai o apoio? Essa é que é a questão. Agora vou ver. Estou com um filme meu que vou meter também nos concursos e vou experimentar pela primeira vez em Portugal como é que é esse retorno, para ver até onde é que isto é ou não um ciclo de panelas.

Este filme é para as pessoas. É um mimo que deixo como artista

Está a fazer um filme seu?

Já está a ser elaborado há oito anos, desde que tive o percalço do cancro. Está em finalização de textos e agora vamos passar para a parte da produção. Vão ser os meus próximos dois anos de trabalho.

O tema é inspirado na fase em que foi diagnosticado com cancro?

Baseado na história de uma pessoa que teve cancro e que superou, e que descobriu um caminho mental de como levar o processo todo. Este filme é justamente para ensinar às pessoas como ultrapassar o processo oncológico de uma forma completamente positiva. Tanto quem passa, como quem sofre. Tudo! São várias histórias paralelas que tem todos os temas que quero passar sem dar aquelas chapadas de consciência, que ninguém tem saco para ver isso. Baseado em histórias verídicas. Tem a minha, mas tem várias histórias maravilhosas ali.

Parece que neste país só tivemos dona Eunice Muñoz e o senhor Ruy de Carvalho. Não! Muitos atores mais velhos desempregados não têm hipóteses

Vai fazer parte do elenco?

Não sei isso. Mas vou dirigir. Quero fazer isto de uma forma que este filme fique. Não é para mim, este filme é muito maior do que eu. É um filme de motivação. Para fazer isto, tive de mergulhar durante cinco anos num universo cruel que é o universo do cancro, das pessoas do cancro. Não quero prémios, não quero ganhar dinheiro. Este filme é para as pessoas. É um mimo que deixo como artista. Se me considero bom ator, um lutador, uma pessoa ativista nas boas causas, acredito que mereço deixar esta obra. E principalmente para a minha filha, porque daqui a 100 anos já ninguém sabe quem foi Gonçalo Diniz, garantidamente. A vida é assim. Por isso o que importa é o que vivemos aqui, agora.

Vivo muito as angústias dos outros, sou uma pessoa muito ativa com os meus amigos, os meus colegas, especialmente os mais velhos que não têm onde cair mortos, que não têm dinheiro, que estão com dificuldades, que não têm oportunidades. Parece que neste país só tivemos dona Eunice Muñoz e o senhor Ruy de Carvalho. Não! Muitos atores mais velhos desempregados não têm hipóteses. Hoje em dia é tudo para miúdos. Tenho 51 anos, faço papéis de 40 e ainda bem porque fisicamente estou bem, mas hoje é tudo vintes.

Sente que quando dizem que ‘Portugal não é um país para velhos’ encaixa perfeitamente?

Nós somos um país de velhos e não trabalhamos para os velhos. Estamos a trabalhar para uma geração nova que está a mil. Mas é o que é.

Estou feliz com a minha vida, tenho uma filha maravilhosa, uma mulher divina. O que é que eu posso pedir mais? Saúde

O facto de no início da carreira ter tido trabalhos no Brasil e no México acabou por ajudar/impulsionar esta nova fase da internacionalização da carreira?

Comecei do zero. Bem, o Brasil sim. Já fiz conexões, vivi muitos anos [lá]. O meu agente é o mesmo de sempre, que é o meu agente em Portugal também.

Isto foi uma busca. Comecei a mandar e-mails, pesquisei onde estavam os castings, faço contactos com atores. Isto do Juan Carlos Corazza é maravilhoso porque já fiz seis cursos em formação, seis seminários com ele, cada um são 20 atores do mundo que ele escolhe a dedo. Então, tenho contacto com vários atores, mando castings para eles e eles mandam para mim. Há pessoas boas neste meio, não são só invejosos. Coisa que aqui em Portugal não acontece. Só te avisam quando fecham com a série. Castings ninguém avisa.

Como não sou assim, isto faz-me muita confusão. Já sofri com isso, agora já não sofro. Tenho consciência que é assim. Prefiro não olhar e fazer o meu caminho, sabendo que isso existe. ‘Temos de lutar pelos direitos’. Tenho mais quê? 30 anos de vida? Não vou estar aqui a lutar.

Já está cansado?

Já lutei muito. Já fui para o México, para o Brasil, Estados Unidos, já carreguei caixas, já limpei paredes, já limpei sanitas, já me formei como ator, tenho um currículo, graças a Deus não paro de trabalhar. Estou feliz com a minha vida, tenho uma filha maravilhosa, uma mulher divina. O que é que eu posso pedir mais? Saúde.